©TTVerdePt (2000)   

Ambiente: o Dia Mundial - A voz do Geógrafo

Introdução

Dia 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente. Não obstante, há muitas pessoas que julgam ser desnecessário que um dia do ano seja dedicado ao Ambiente. É a essas, essencialmente, que dirijo estas linhas que, sem exaustão, pretendem radiografar o planeta. Com elas, veremos que muita coisa vai mal na sustentabilidade da Terra. Também sabemos que ainda não é tarde, que existe esperança, que ainda não atingimos o ponto do não retorno, ou seja, a Terra ainda pode conseguir estabelecer a reposição de ecossistemas face às agressões. No entanto, o tempo que nos resta é muito pouco. Uma certeza existe: caminhamos a passos largos para a ruptura, e os sinais são mais que muitos. 

O Ar 

Há muito tempo que a utilização dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) aumenta a quantidade de Dióxido de Carbono ( CO2 ) existente na atmosfera. Este gás, um dos que reforçam o efeito de estufa, é só por si responsável pela subida das temperaturas globais. A  continuar o actual ritmo de crescimento, espera-se que, daqui a cinquenta anos ( hipótese da duplicação do CO2 ), as temperaturas aumentem entre os 4ºC nas baixas latitudes e os 8ºC nas latitudes polares. Tal evolução, que esperamos não venha a acontecer, seria responsável por múltiplas consequências nefastas à Humanidade.

O efeito de estufa é um fenómeno da natureza que há muito tempo reforçamos negativamente com CO2, CH4 ( Metano ), CFC’s ( Clorofluorcarbonetos ), SO2 ( Dióxido de Enxofre ) e O3

( Ozono ). Estes gases, produto da nossa indústria e vida consumista, absorvem enormes quantidades de radiação solar e servem de tampão reflectivo à irradiação terrestre, contribuído, assim, para o aquecimento global.

O aquecimento global é um fenómeno que se acentuou nos últimos cinquenta anos, pois a temperatura do planeta subiu em média 0,6ºC, valor que só por si é responsável pelo degelo das calotes glaciares e a subsequente subida do nível médio das águas do mar. Estes fenómenos põem em risco populações costeiras e ribeirinhas um pouco por todo o lado.

O aumento do buraco na camada de Ozono - situada na estratosfera - deve-se sobretudo à produção de CFC 11 e CFC 12, utilizados nos sistemas de refrigeração, aerossóis, alarmes e cosméticos. De facto, os CFC’s  possuem a capacidade de destruir a molécula de O3 e, além disso, a sua grande longevidade reforça este poder destrutivo. Sobre o pólo Sul, a camada de Ozono vai enfraquecendo, o que diminui a capacidade de nos proteger das radiações ultravioletas, e se estas não forem devidamente filtradas os prejuízos serão muitos; aliás, olhos, pele, sistema imunológico, colheitas e vida marinha estão já a ser afectados.

O «SMOG» é um fenómeno de poluição do ar urbano, qual sopa mortal, tal é a quantidade e diversidade de poluentes produzidos que condicionam a vida urbana e artificializam completamente os estados de tempo nas grandes regiões urbanas. E eis que temos um «clima urbano», criação do Homem e responsável pela existência das famosas dioxinas e de outras maleitas que, de modo invariado, aumentam a probabilidade de aquisição de doenças dos sistemas respiratório, neurológico e imunológico.

As chuvas ácidas são um outro fenómeno realizado pela emissão de óxidos de Enxofre e Azoto

( SO2 e NOx), que, uma vez presentes no ar, se misturam, através de uma reacção química, com água, que depois se precipita, provocando danos nas florestas, toalhas freáticas , lagos e monumentos. 

A Água 

Os Oceanos são um vazadouro das escórias mais perigosa, embora possamos não nos aperceber disso, dada a sua imensidão e imponência. Eis alguns problemas destes ambientes.

Resíduos radiactivos cuja presença, só no Oceano Atlântico, ronda várias dezenas de milhões de toneladas, provenientes de depósitos intencionais até 1983, data em que esta prática foi abandonada.

Os acidentes com mísseis, aviões, navios e submarinos, pois se de alguns houve notícia, muitos outros ficaram em segredo militar.

As descargas de detritos urbanos e industriais, que de forma contínua se fazem sem qualquer tratamento em áreas costeiras, são outro aspecto a considerar relativamente à poluição  das águas marinhas.

Os petroleiros já que, cada vez que um se parte, incendeia ou encalha, é uma nova catástrofe ecológica, de cada vez que lavam os tanques, é uma maré negra que se abate sobre a vida marinha.

Embora a água salgada não nos mate a sede, mata-nos, de certeza, a fome. O peixe, que nos alimenta todos os dias, é o primeiro a sofrer as consequências; nós somos os segundos. Está devidamente demostrado que índices perigosos de mercúrio, chumbo e outros venenos chegam aos nossos organismos através desta fileira da nossa cadeia alimentar.

A água potável, recurso vital, é cada vez menos, quer pela poluição dos rios, lagos e toalhas freáticas, quer pela enorme pressão demográfica. Eis um bem escasso, que já é responsável pela existências de alguns conflitos ( Norte de África e Médio-Oriente ). O «Stress» da seca é um indicador que revela um número crescente de países a sobreviver com quantidades reduzidas de água potável. 

Os solos 

A poluição proveniente da actividade agrícola, herbicidas e pesticidas, juntamente com a monocultura, constituem factores de empobrecimento e crescente destruição do solo. Um pouco por todo o lado, este fenómeno, produto da agricultura moderna, tem deixado as suas marcas.

A erosão, fenómeno acentuado pela constante fragilização do solo, é responsável pelo desaparecimento de biliões de toneladas/ano deste recurso. Basta-nos compreender que é dele que retiramos a maior parte dos nossos alimentos. Sucessivamente, transformámos solo arável em áreas estéreis.

A desertificação, visível pelo aumento das desertos e pela aridificação de regiões semi-áridas ou sub-húmidas, é um outro fenómeno que agrava as debilidades da litosfera. Esta ameaça, que se estende a um quarto do planeta, deve-se à destruição do manto vegetal, ao sobrepastoreio, à utilização desregrada dos recursos aquíferos e a deficientes utilizações do solo.

A urbanização crescente é responsável pela ocupação de solo arável; só os E.U.A e o Canadá «cimentam» cerca de 5000 m2/ano de terras de boa qualidade.

Para reconhecermos a gravidade deste problema, chega-nos compreender que, em condições naturais adequadas, 10 mm de solo levam cerca de 100 a 400 anos a formar-se e que, em pouco tempo, o Homem pode destruir tudo isso. 

As florestas 

A desflorestação, a exploração de recursos minerais a céu aberto e o aumento de áreas agrícolas têm destruído enormes áreas de floresta ao longo do tempo, mas actualmente com grande incidência nos países mais pobres.

As florestas temperadas, praticamente inexistentes , foram substituídas pelo avanço do espaço agrícola, pela utilização de espécies florestais importadas de alto rendimento e pela crescente urbanização e industrialização. Em países da Europa, a percentagem de área ocupada pela floresta temperada já não ultrapassa os cinco pontos percentuais, o que é muito pouco.

As florestas tropicais representam 55% da biomassa da Terra, consideramo-las essenciais ao equilíbrio do planeta. No entanto, estão seriamente ameaçadas. Localizam-se em países que atravessam graves problemas, onde representam um imprescindível recurso de sobrevivência quer da população crescente, quer da economia desses países. É sabido que a exportação de madeira tropical é uma das cinco exportações mais valiosas destes países. A exploração de minérios feita a céu aberto, porque representa uma redução de custos de exploração, é uma outra causa que afecta a floresta. Os projectos de implementação da agricultura de plantação têm levado ao abate sucessivo de extensas áreas florestais. Só para sensibilizar, desde 1990 já se destruiu metade da floresta tropical e todos os anos são destruídas e afectadas áreas florestais do tamanho do Reino Unido.

Cada vez mais com menos floresta e com consequências muito alarmantes, tais como: redução da capacidade de renovação do ar, aumento dos gases de estufa, afectação da biodiversidade, aumento da erosão e redução da capacidade de retenção de água por parte do solo. 

A biodiversidade 

Todos os anos, extinguem-se espécies sem que algum dia as tenhamos conhecido. Não é necessário dizer muito mais, para entender a dimensão do problema. Temos atentado contra a diversidade genética, de espécies e de ecossistemas.

A nossa intervenção destrutiva em cadeias alimentares tem conduzido a um aumento de espécies em vias de extinção, ou porque nos incomodam ou porque as caçamos, ou simplesmente porque ignoramos a sua utilidade. Por cada dia que passa, cerca de 100 espécies animais e vegetais desaparecem para sempre.

Uma espécie vegetal que se extinga pode conduzir a vias de extinção cerca de trinta animais e insectos que dela dependem. É esta complexidade que devemos respeitar. Sabemos que se trata de um puzzle onde nós somos uma peça, e que à nossa volta vão faltando cada vez mais peças.

A desflorestação e a monocultura são os principais responsáveis pela diminuição da diversidade de vida. No entanto, novos perigos, ainda não provados, mas possíveis, vêem-nos da manipulação genética, que poderá, no futuro, implicar uma redução de espécies, pois é desconhecida a resposta que a Natureza poderá dar face a espécies criadas pelo Homem.

O Pombo-passageiro, a Arara-glauca, a Foca-monge-das-caraíbas, o Canguru-pequeno e o Veado-schomburgk’s já não fazem parte do mundo vivo, muitos outros animais caminham para lá. É preciso parar! 

Conclusão 

Muito mais haveria para dizer e enumerar. Isto basta-nos para compreender a escala dos problemas que afectam o Ambiente e mais que justifica a existência do seu Dia Mundial. Porque os problemas são globais, não têm fronteiras, só congregando vontades poderemos ter ainda a esperança. Mais que não seja, pelas nossas crianças, pois delas é o futuro,  e  queremos que este seja de mãos dadas com a Natureza.

Vamos lembrar o Ambiente no seu Dia e respeitá-lo todos os outros dias, cada um de nós, onde quer que estejamos... porque do local se faz o global.

Emídio Baptista (Professor de Geografia)  
5 de Junho de 2001

 

Comentários para   contacto@ttverde.com 

 

 

0

 

 

 

 



O canal do Tempo, de Luís Sanches  [xiritung@clix.pt]
InforTempo

Pesquisar o TTVerdePT


 

 
 

Pesquisa Naturlink



 

Contacto webmaster@ttverde.com