©TTVerdePt (2000)   

 

A voz do Geógrafo 
O que este inverno trouxe, traz e nos pode trazer.


A grande invernia que se tem feito sentir tem muitas consequências, umas positivas e muitas negativas. Vou falar sobretudo num determinado tipo de consequências negativas, onde infelizmente, já se contam vítimas.

Atentem nos conceitos que aqui trago:

Desprendimento de rochas - Queda ou movimento de precipitação de um segmento de rocha recentemente solto e de qualquer dimensão, de uma falésia ou de outro precipício.

Deslizamento de rochas - Movimento súbito e rápido no sentido descendente de segmentos de rocha recentemente soltos sobre uma superfície inclinada ou outra superfície já existente.

Deslizamento lento do solo - Movimento gradual e permanente do solo e de rochas soltas por uma encosta que pode ser suave, mas que habitualmente é íngreme; também se designa por deslizamento lento superficial.

Agora é só efectuar um undo na nossa memória e lembrar os acontecimentos trágicos do Alto-Minho e Douro, entre outros.

Porque acontecem? Como se podem prever e antecipar? São duas importantes questões a que tentarei dar resposta.

Primeiro: São movimentos naturais, o Homem apenas os pode alterar, nunca os poderá anular. Se forem observadores atentos por certo já encontraram grandes blocos rochosos isolados em vales ou conjuntos de pequenos blocos misturados com material mais fino em cortes de estradas ou obras. Tanto num caso como noutro aquilo que vêem é resultado de deslizamentos e desprendimentos, que já ocorreram em tempos muito remotos, sem que o Homem pudesse ter interferido através da humanização.

A inclinação das vertentes é talvez o factor mais próximo, seguido da natureza geológica dos solos, depois temos a pluviosidade e a formação de torrentes e finalmente o manto vegetal; estes factores combinam-se entre si criando zonas mais propícias a estes fenómenos e criando outras mais “seguras”. A acção humana vem depois alterar a ordem e peso de cada um dos factores, e na grande maioria das situações, a intervenção humana é negativa ou seja insensível à ordem natural e prepotente com os factores naturais. Como resultado temos em larga escala mais desprendimentos e deslizamentos sempre que o elemento pluviosidade vai para além daquilo que consideramos normal, mas garanto já que anormal não é.

Segundo: Preveni-los e Antecipá-los, entenda-se minorá-los. É tudo uma questão de vontade política. Será que os políticos sabem disso? N...! Em primeiro lugar terá que se olhar o ordenamento do território como instrumento essencial, ou factor estruturante do desenvolvimento sustentado; em segundo lugar é necessário dar trabalho e poder de decisão aos cientistas e técnicos com sensibilidades diversas, onde não sejam esquecidos os ramos diversos da megaciência do ordenamento. Numa análise mais concreta, as autarquias e as comissões de coordenação regional, terão de fomentar equipes de características multidisciplinares que acompanhem a execução dos vários instrumentos de ordenamento. Por mim o Geógrafo tem lugar nestas equipes, quanto aos outros, eles que falem por eles.

O nosso território precisa urgentemente de cartas de risco, elas é que são o instrumento que nos vai permitir minorar as consequências dos deslizamentos e desprendimentos. Mude-se a lei de bases do ordenamento, acabe-se com a hipocrisia. Como é possível permitir urbanizações em vertentes ou em linhas de água sem que o risco esteja ponderado? Como é possível permitir o abandono de socalcos? Como é possível permitir a desflorestação indiscriminada de vertentes  e topos de colinas? Infelizmente no nosso país, até é permitido instalar estaleiros de areia debaixo de pontes! Querem mais?

Aos TT's  deixo a seguinte mensagem: Olhem as vertentes, desafiem-nas mas sobretudo, respeitem-nas.

Emídio Baptista (Professor de Geografia)  
24.03.2001

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