No seguimento do que temos vindo a apresentar sobre diversos aspectos arquitectónicos e/ou paisagísticos tendo como tema a cidade do Porto tal como existia num determinado período de tempo a que se convencionou chamar de “romântico”, propomo-nos agora uma terceira parte, continuando o percurso anteriormente iniciado, pois como devem estar recordados tínhamos “estacionado” o nosso Land-Rover Serie IIA em Massarelos, defronte do “Museu do carro eléctrico”.

 
Mas, antes de tudo queremos deixar aqui dito que o objectivo deste “trabalho” é simplesmente dar a conhecer algumas bonitas fotografias tiradas aqui na cidade, sendo a temática-base a acima referida. Não se pretende de forma alguma fazer um trabalho sistemático e completo, pois tal já tem sido feito por autores bem mais credenciados.

Esclarecido este ponto, vamos a pé dar uma volta pela parte baixa de Massarelos (Alameda Basílio Teles). Como estamos defronte ao “Museu do carro eléctrico”, e tendo-se completado estes dias os 150 anos do “americano”, carruagem puxada por um par de mulas, demoramo-nos um pouco mais defronte deste museu. 


E eis que surge uma das suas preciosidades, o grande 277 verde escuro e branco, a manobrar para entrar na “remise”! Que bonitas imagens, e neste particular devemos realçar o esforço feito por alguns responsáveis – creio que do “Museu dos Transportes”- ao terem evitado o abate total deste tipo de transporte urbano, uns anos atrás! Bem hajam, que a cidade vos está reconhecida! 

 De seguida, aproveitamos o dia de sol radioso para subir parte da rua da Restauração e flectir à esquerda para a rua de Entre-Quintas, até à “Quinta da Macieirinha” e à “Casa Tait”, consideradas hoje o «coração do romântico» portuense. Tanto assim que agora, na sequência do evento «Porto, Capital da Cultura 2001» a edilidade delineou na zona alguns percursos a percorrer a pé, precisamente denominados «Caminhos do Romântico».

Chegados aqui, e antes de prosseguirmos para Miragaia, temos de contar que esta zona foi urbanizada no séc. XVIII e primeira metade do séc. XIX, tendo tido como principal motivo um surto de peste no casco urbano do Porto que pôs em fuga muitas das famílias burguesas que ali viviam. Quem para tal teve meios, mandou edificar casas senhoriais no meio de frondosas quintas junto à antiga aldeia de Vilar, zona onde hoje ainda se situa o “Seminário de Vilar”. Esta zona era caracterizada por frondosos arvoredos e verdejantes campos, possuía bons ares e sobretudo água em abundância, essencial para uma boa higiene. Infelizmente hoje já só nos restam as duas quintas acima referidas, para além dos jardins do “Palácio de Cristal” obviamente, e algumas hortas dispersas.

 
A este respeito, entendemos chamar à atenção dos responsáveis autárquicos para um ponto: é de facto de saudar o trabalho feito em restaurar as quintas e os caminhos referidos, sobretudo para manter a traça original da zona. Só que tal implica obviamente uma manutenção e limpeza periódica da zona, ou será que uma vez terminado o evento cultural acima citado, “terminou o esforço”? Uma vez que se fala tanto em revitalização do centro da cidade, bom era se houvesse entidades interessadas em reconstruir casas na traça da época, seja para habitação, seja para serviços (arquitectos, médicos, advogados, artistas).
 

 
Bom, após termos visitado o interior das quintas já mencionadas e vasculhado os seus frondosos jardins, apreciando a fabulosa vista para o vale do rio, voltamos a descer a rua de Entre-Quintas até à rua da Restauração. Aqui vemos uma imponente unidade comercial muito bem mantida na sua traça original (“Diógenes & Santos”), apreciamos com um sorriso o “Recado ao Porto” visível na fachada de um estabelecimento de diversão na zona, mas o fundamental é entrar numa pequena praceta situada já na parte final da rua, no seu lado esquerdo. Aqui se situa a igreja de Massarelos, ou antes: «Igreja do Corpo Santo de Massarelos» que alberga a “Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos”. 

 
Esta confraria foi fundada no longínquo ano de 1384 por “mareantes”, ao que reza a lenda devido a alguns deles terem sobrevivido a terrível tormenta no alto mar, durante a qual avistaram nos mastros e cordame da sua embarcação o «fogo de S. Telmo», fenómeno originado por electricidade estática e tornando visível umas pequenas chamas de fogo. Nessa altura foi feita promessa de que se chegassem a bom porto logo mandariam edificar uma capela dedicada a S. Telmo.  Assim nasceu a capela que ainda hoje se vê logo a seguir à Alameda de Basílio Teles e da qual apresentamos aqui algumas fotografias. O painel de azulejos que se vê nas suas traseiras e que mostra o Infante D. Henrique venerando S. Telmo demonstra haver veracidade nesta lenda.


Ainda defronte da igreja principal, ao lado da rua da Restauração, em pacata tarde de domingo, escutamos de súbito o inconfundível ruído de cascos de cavalo! Teríamos recuado no tempo e viria a caminho um coche da época romântica? Não, rapidamente se desfez a dúvida: era um par de guardas da GNR, montados a preceito em garbosos cavalos da corporação, sediada no Quartel do Carmo.


Bom, e de seguida metemo-nos de novo no Land-Rover para através do muro de suporte ao antigo “Cais das Pedras” nos dirigirmos a Miragaia, até ao edifício da antiga Alfândega, agora “Museu dos Transportes”. Estacionada a viatura, após fotografia junto de outro “carro eléctrico”, iniciamos logo novo percurso a pé.


 Miragaia é das freguesias do Porto com um encanto muito próprio e injustamente um pouco ostracizada. Possui inúmeros edifícios de traça antiga, e até há poucos anos fervilhava de actividade, enquanto funcionava a “Alfândega” com o inúmero cortejo de despachantes, solicitadores e demais funcionários indispensáveis à burocracia da actividade comercial trans-fronteiriça.


Aqui iniciamos diversas subidas pelas “Escadas das Sereias”, pelas dos “Mercadores”, pelas do “Monte dos Judeus”, visitamos o «Palácio das Sereias», mandado edificar no séc. XVIII pela família Cunha Portocarrero, vimos a “marca da bandeirinha”, onde se içavam as bandeiras de sinalização às embarcações demandando o Porto, vimos o esforço de restauro feito na zona, visível pelas imagens que tiramos. 

 

E não pudemos deixar de pensar: como seria esta parte velha da nossa cidade, se esta se situasse noutro país europeu, com mais vocação cultural para o seu passado? E foi com este pensamento na mente que nos sentamos mais à frente num estabelecimento de gastronomia a degustar uma boa “francezinha” e bebendo um bom “fino” para retemperar as energias gastas em tanto subir e descer estas íngremes encostas ribeirinhas do Porto, com tanto encanto e romantismo, e tão desconhecidas da maioria dos seus habitantes!

 
"Apolo já fugiu do Céu brilhante, Já foi Pastor de gado" (Tomás Antônio Gonzaga) 

Poeta brasileiro de origem portuguesa (1744-1810). Um dos principais nomes do arcadismo no Brasil. Nasce no Porto, e estuda direito na Universidade de Coimbra . Chega a Minas Gerais em 1782 para exercer o cargo de ouvidor em Vila Rica, actual Ouro Preto. Participa do grupo de poetas que tem como mestre Cláudio Manuel da Costa, um dos fundadores do arcadismo mineiro. Entre 1788 e 1789 escreve as «Cartas Chilenas», poema que satiriza os actos e desmandos do governador do estado de Minas Gerais, Luis da Cunha Menezes. 


A jovem Maria Doroteia Joaquina de Seixas, 20 anos mais nova que ele, inspira os versos líricos de “Marília de Dirceu”, obra publicada em 1792 . Acusado de participar na «Inconfidência Mineira» , em 1789, é condenado à prisão perpétua e passa três anos preso na ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. A pena é comutada para degredo e ele embarca para Moçambique, em 1792, onde se casa com Juliana de Souza Mascarenhas, filha de um mercador de escravos, e morre anos depois. 

Esta é, resumidamente, a história de um portuense nascido em Miragaia e como se vê elemento influente no movimento libertador brasileiro, onde foi companheiro de lutas do famoso «Tiradentes».

 

Texto e Fotos de Carlos Gilbert.
Porto 17  de Maio de 2002


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