©TTVerdePt (2000)   

A Primeira vez...

Pois é!
Chegou a minha vez! (Finalmente...)
* por José Carlos Grilo

Finalmente consegui tirar "os três" do Pajero Pinin....e ia lá deixando ficar o resto :-/

Começemos.
Comessêmos.
Não, comecemus...Bem, INICIANDO!
Pronto, agora sim.
eh eh
Domingo. "Ano de Sua Graça" de 2001, 15 de Abril.

Temperatura: 30ºC
Local: Algures perto de Mértola no sul do Alentejo, interior do País junto à fronteira com Espanha.
Missão: quase impossível, mas ....já vão ver a seguir....seria a de ver a barragem natural que o Inverno criou no meio do nada e ....
Objectivo: Descobrir Villa romana com 2000 anos que está soterrada, onde, dizem os idosos da terra, "de cada vez que os arqueólogos vêm cá, encontram sempre moedas de ouro e prata, pratos, ânforas, utensílios da cozinha e muita outra coisa daquele tempo". (eh eh eh!!! Oh pra mim, com olhos de cobiça :-$$$$)
Indiana Jones de trazer por casa. Nem mais.
Percurso: Terra batida, piso todo seco, muito pasto.
Paisagem Natural: Horizonte montanhoso, muitas colinas, montanha com a Virgen de la Peña a servir como "guia" no lado espanhol, e vacas. Muitas vacas. BUÉÉÉ de vacas, "praí" 200, por todo o lado!!! (Cristo!)
Verificações técnicas: Depósito meio cheio, porque a voltinha seria de cerca 35 Km. Verifico no computador de bordo que dá para fazer cerca de 270 Km contando com a reserva, os Pneus com pressão normal, tipo 80% estrada 20% terra. (É, sou louco!). Jipe estava lavado desde Sexta-feira.;o|
1834CC com 120 Cavalos prontos para partir ao sabor da gasolina sem chumbo 95.
Ar condicionado?
Náááá.....não vale a pena ligar, vidros todos abertos, logo poeira toda dentro.
Acessórios: Pá, corda com 20 metros, GPS, garrafa com 5 L de água, Bússola (de reserva), Telemóvel, binóculos 25X30 e muita coragem. (e medo).
Piloto e co-pilota.
Doses de paciência e adrenalina a crescer.;-)
Partida: Pelas 14H00.
_____________________

Seguindo o trajecto de terra batida, e afastando-me o mais possível das vacas, que calmamente vão caminhando e comendo o pasto, lá vamos nós a 20 Km/h. Tracção 4x2, consumo 8.1L/100Km, percorrendo uns bons 7 km quase planos. Por enquanto.
Alguns coelhos saltitavam por ali, e mosquitos. Muitos mosquitos e aranhas. BAH! Bichos horriveis!!! PAF! Menos um. PAF, outro....
Ligo o rádio. Não capto nada excepto a Cadena Sur com música espanhola y muchas sevillanas... olé!!
Bah!! Onde está a minha cassete dos Heroes del Silencio? Ah, está aqui... "Entre dos Tierras"....! Hummm... soa-me propositado, vamos lá!
PAF! Mais um...
OPS!... lá vêm mais umas vacas. SHIU!
Pára o jipe e rezo para que elas passem sem se sentirem incomodadas, porque estamos na época da procriação e nunca se sabe...
Passaram.
Continuamos sob o sol abrasador e iniciamos uma descida com muita pedra solta, engato 4x4 e primeira mudança, seguindo a menos de 10Km/h saltando em cada pedra e obrigando a suspensão a trabalhar. (Sua preguiçosa!)
Lá em baixo, um pequeno riacho talvez com 10 cm de altura vai "rasgando" o vale em direcção à barragem. Estamos no caminho certo.
EPA! o consumo disparou para os 10L, a temperatura do motor? Normal.
Após a passagem do riacho constato que a subida é bastante inclinada com 50m de comprimento e fazendo cálculos chego à conclusão que tem cerca de 30º de inclinação.
Subo?
PAF! Mais um...
Ok. Vamos a isto.
Está decidido!
Encho o peito de ar, engulo um pouco de àgua, engato o bloqueio de diferencial na posição 4LLc (redutoras), primeira metida, acelero um pouco para sentir o terreno, acelero mais ainda e lá vamos nós.
Subiu, subiu sem se lamentar, aguentou forte e firme apesar de sentir todas as pedras do caminho!!! O jipe mais parecia uma batedeira fazendo bolo...
"Fofinha, tira-me este mosquito da testa, não aguento mais!!!"
Chegando lá em cima....ficámos siderados!!
Que paisagem!
Que vista!
Que ar puro!
Que silêncio!
Silêncio!?!?!
Mas....de onde vem este barulho de motor!?!?!
Hein!?!?! Um carro?!?!!
É. Um FIAT UNO TD de 2 lugares, vagarosamente, esforçadamente....vinha subindo a encosta do outro lado carregado de palha!!
Insólito!! E eu "práqui" com esta mania de aventura....tsc, tsc, tsc.
PAF!! (@£$&%# de mosquitos!)
Ando um pouco para a outra colina mais baixa de onde vinha o carro e:
-Boa tarde! - Digo.
-Boas!
-É por aqui o caminho até à "barragem nova"?
-É sim, você segue aí por baixo, passa os portões da Herdade e não falha! É sempre em frente.
Curioso, pergunto: - Mas você vem de lá?
- Estive lá hoje de manhã. Aquilo está uma beleza, as vacas agradecem esta água toda.
Ui!! Lembrou-me as vacas!!!
-E estão lá muitas?
-Não, elas agora estão descendo pelo pasto, se for sempre por aqui já não as vê.
Olhando para o seu "4x4" pergunto como é possivel andar naquilo neste terreno.
-Sabe, eu nunca vou pelo de terra batida, vou ao lado, sempre que posso o mais direito possível e depois apanho a estrada velha.
-Estrada velha? Qual?
-Aquela! - Apontando para o meio das árvores onde se distingue no meio do pasto uma côr castanha clara rectílinea.
Consulto o mapa da Michelin, versão 2001 e cara demais!!
Não vem nada.
Intrigado, volto à carga:
-Então, se seguir esse caminho vou dar à aldeia?
Acena-me afirmativamente enquanto limpa as gotas de suor.
-Bom trabalho!
-Obrigado, e veja lá não se perca!
Agradeço a atenção e voltamos ao GPS.
E agora?
PAF!! Irrrrrra.....
Lembrando-me do que os idosos disseram sobre a Vila Romana, agarro os binóculos e começo a procurar alguma formação em quadrado de arbustos, porque eles costuma crescer exactamente em cima das casas, ou na melhor das hipóteses, nos restos de paredes.
encontro-as a cerca de 700m para sul.
-Olha ali! - Digo apontando para um pequeno planalto em frente:
Está a ali a Vila!!!
Com a ansiedade a crescer, voltamos ao jipe e partimos.
Já passaram quase 2 horas desde que saímos da aldeia.
A descida é falsa!
O jipe começa a descer, com diferencial a funcionar e pisando o travão calmamente, só dando um cheirinho, chegamos no fundo sem qualquer problema.
(Mesmo com pneus 80/20!!!)
O consumo vai subindo...
PAF!! "@%"&% partam esta bicharada !!!!!
Enfim, terreno plano.
Continuamos em direcção à Vila e de repente....vacas.
OH não! Outra vez!! Mas o homem não disse que elas iam descendo para o outro lado?!?!?
Colocamos o jipe de modo a fazer uma retirada de emergência em caso aflitivo e ficamos calmamente com os coração aos pulos, à espera que as bonitinhas passem...
Elas passam, passam e.... por último fica um boi.
Isso mesmo!
Um maldito boi, parado no caminho, olhando para nós e a começar a patear o chão.
A minha co-pilota quase que entra em pânico, e eu, pensando com os botões, "Pronto! Agora é que é! Ou faço uma "pega de caras" ou vou para casa com uma nova versão de ar condicionado no jipe!"
Estratégia precisa-se.
Digo para ela passar para o volante enquanto eu saio do jipe e começo a andar para uma árvore ali perto de modo a distrair a atenção.
O meu coração batia querendo sair pela boca e ela no jipe tremendo de medo.
Juro que nunca mais faço isto! ;-)
Agarro num ramo caído e começo a batê-lo no pasto enquanto ela dá a partida do motor, desengata o diferencial e deixando só em 4x4. O boi começa a avançar em direcção ao jipe, devagar, talvez confuso por ver uma coisa esquisita por ali e pára.
Olha para mim e fixa-me. Pronto! Estou feito.
Agora vai ser mesmo "pega de caras". Olé!
Começo a agitar o ramo enquanto ela vai avançando devagar e desviando-se do boi, fazendo um semi-circulo.
Eu avanço também de modo a apanhar o jipe um pouco mais à frente.
PAF, PAF!!! Agora colam-se à cara. #$%$#@#
O boi talvez, mais interessado na manada, volta-se para as vacas que já se tinham afastado um pouco e começa a andar em direcção a elas.
UFFF!!!!......
Desta já nos safámos.
Continuemos até à vila.
Subimos a colina com a redutora e paramos junto a um resto de muro. Fácil!
Fantástico este sistema da Mitsubishi!! Desculpem lá mas não troco este tipo de tracção por nada deste mundo!!!!
Estranho.
Isto não parece ter 2000 anos....
Mas aparenta isso, só que ao longo do tempo a população foi aproveitando as paredes restantes para fazer um curral.
Olho em redor, observando, e tentando ver restos de escavações anteriores.
Uns montinhos de terra mal coberta de vegetação despertam-me a atenção.
Ali está o que procuro!
Pego as referências que tinha trazido de Lisboa sobre o local e começo a comparar.
Não há dúvida, foi ali mesmo que o Instituto do Património andou a escavar. Só que estava tudo tapado novamente porque, os trabalhos vão recomeçar este Verão, logo para proteger o achado, encheram de terra tudo outra vez.
Se esteve protegido durante 2000 anos, mais um Inverno (e que Inverno) não vai fazer mal...
Desilusão!!!
Também, eu estava à espera de quê!?!
De encontrar moedas ali mesmo, à espera de serem apanhadas do chão?!?!
Só em filmes mesmo.
PAF!! "#$%&@£§
Agarro na pá e procuro um local para cavar um pouco.
(Já que estou aqui, também não vou embora pelo menos sem tentar...)
A minha co-pilota está a ficar "cansada".
-Vamos embora, quero ver a barragem. Agora estás aqui a cavar feito um arqueólogo e eu na seca!....
-Calma, só mais um pouco.
Começo a cavar, o suor escorria pelo corpo, e dou por mim a pensar que um banho na barragem, é neste momento mais sedutor do que isto...
Cavo aqui, ali, mais à frente, mais para o lado e ....nada! Rien, Nothing, Niente, Niet....


(...) o dono está a ver se cai do muro com 2000 anos...

Encontro alguns restos das contruções originais, pequenos pedaços de pedra polida que servia de "calços" para as paredes no momento da construção, arqueológicamente sem valor, mas que trouxe para casa. Eh eh Já tenho um troféu!
Depois de guardar alguns pedaços, avançamos em direcção à barragem.
De volta ao caminho de terra batida, vamos andando devagar, passamo o portão da Herdade, propriedade privada, subindo e descendo pequenos montes, os quais desafiando todos os "dotes artísticos" e lembrando a teoria toda do "manual de condução todo-o-terreno da Jipenet" :-)
O consumo estava agora nos 11L/100, e uma breve consulta ao computador de bordo, diz-me que posso "brincar" durante mais 204 km. A temperatura continuava normal.
Chegámos!
........
É A-B-S-O-L-U-T-A-M-E-N-T-E fantástica a vista!!!
Imaginam um enorme lago no meio das montanhas com pequenas ilhas por todo lado ao longo de 20 km??? E muitas árvores, passarada....
Tiro a posição no GPS e comparo o valor no mapa.
O lago ou barragem, é a fronteira com Espanha! Pego os binóculos e observo a outra margem....de repente oiço um chapinhar na água!
É a co-pilota que deixara a roupa, bem ....parte dela, no chão e estava tomando um banho na água limpa e refrescante!
-És doida! Não conheces o fundo, ainda aparece algum bicho e...
-Cala-te e vem para aqui!
Obedeço ;-)
Fazer o quê ?
Depois de um bom banho revigorante, eis que iniciamos o regresso, já tinham passado cerca de 4H00 desde que saímos, e não queriamos arriscar andar de noite.
- E se fizéssemos o caminho daquele homem do FIAT?
- O quê ?!? Daquele maluco?
-Claro! 
-Ok, vamos lá.
PAF!! ""&#"#"£§@§
Demorámos cerca de 2h30 a fazer o caminho de regresso e digo uma coisa: aquele homem podia ser doido, mas o caminho estava uma maravilha!
Usámos toda a tracção possível e as maravilhosas engrenagens do sistema SS4-I da Mitsubishi e....foi um prazer conduzir um jipe que, à primeira vista parece ser mais de cidade que de campo, mas quando "se vê" na terra, saiam da frente!!! Fácil, fácil. O jipe parece que "ensina" o condutor a dirigir, é muito fiável e responde muuuuuito bem a todas as solicitações, apesar de andar com pneus 80/20. Um espectáculo!!!!
Os japoneses quando inventaram o sistema SS4-I, sabiam o que faziam, na verdade o sistema foi patenteado pela Chrysler, e não é à toa que são sempre os Mitsus que chegam na frente nos Campeonatos de ralys, Paris-Dacar, etc, etc.
Agora só me resta comprar uma latinha de polimento e polir a chapa de lado, para disfarçar os riscos. :-(

JCG
Pajero Pinin
Sempre por um Caminho Diferente (é mesmo)
Lx

Texto do Companheiro  José Carlos Grilo, publicado em "primeira mão" na lista de e-mail jipenet@yahoogroups.com , amávelmente cedido para publicação no TTVerdePT  (A.O. 11.05.2001)

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